O rock, entre nós, não surgiu como promessa de ruptura histórica nem como projeto estético consciente. Instalou-se de modo irregular, às vezes importado, às vezes mal compreendido, mas sempre como sinal de desconforto. Seu inconformismo não tinha a clareza dos manifestos nem a disciplina das ideologias. Era antes uma reação difusa à banalidade reiterada da existência, agravada por um tempo que desconfiava da palavra e vigiava o gesto.
Não se tratava de novidade filosófica. Schopenhauer já havia reconhecido na arte um alívio passageiro para a dor de existir. Nietzsche deslocara essa dor para o campo da afirmação trágica. Cioran, mais tarde, dispensaria qualquer esperança restante. O rock apenas traduziu essas intuições para um vocabulário sonoro direto, por vezes tosco, adequado a uma juventude que não dispunha de linguagem para formular o absurdo, mas o reconhecia imediatamente.
Nos anos em que os deuses se ausentaram do discurso público e a política perdeu a capacidade de nomear o sofrimento, a música permaneceu como prática mínima de sentido. Não mística, no sentido elevado do termo, mas como hábito. Algo que se repete para que o silêncio não seja absoluto.
Resta, portanto, uma afirmação modesta e necessária: que as artes continuem a funcionar como defesa precária contra o vazio. Não como salvação coletiva, nem como consolo individual, mas como intervalo lúcido entre a experiência do Nada e a obrigação cotidiana de continuar.
Prof. Dr. Wellington Lima Amorim